Godofredo Pinto, em julho de 2011
A propósito de mudança da periodização
eleitoral no Brasil aprovada em caráter preliminar em comissão do Senado
Federal – qual seja, a unificação de todas as eleições num mesmo ano, tal como
ocorreu em 1982 (menos para Presidente) -, penso ser mais adequada a manutenção
de eleições a cada 2 anos, porém alterando a coincidência eleitoral nas
instâncias federativas de representação política. Ou seja, o que defendo é a
coincidência das eleições de âmbito regional e local (governador, Deputados
Estaduais, Prefeito e Vereadores), deixando em separado os pleitos de
caráter nacional (Presidente, Senadores e Deputados Federais).
A manutenção de eleições a cada 2
anos é positiva, tanto do ponto de vista democrático quanto econômico. Afinal,
é bom para a democracia que o debate político bem mais aceso que o processo
eleitoral enseja, se dê o mais amiúde possível, inclusive pela maior mobilização
partidária e renovação de parcela da nossa representação política que ocorre
bianualmente (a lembrar: eleições bianuais também ocorrem no presidencialismo norte-americano,
onde são renovados mandatos até de parte do Congresso Nacional; nunca se soube
que os americanos julgassem inconveniente tal prática política por haver
“eleições demais”).
Do ponto de vista econômico, cada
eleição é um período onde a economia se aquece em muito. De fato, o
argumento de que eleição “é uma despropositada gastança de dinheiro – tanto
público quanto privado”, é parte de um discurso despolitizado e conservador,
que vê a atividade política como “um mal infelizmente inevitável”, acreditando
talvez que o “preço” da democracia deva ser o menor possível. Em verdade, o que
nossa economia se desenvolve devido aos investimentos que as candidaturas têm
que fazer (mesmo considerando a inadiável necessidade de se conter a
desproporcional influência eleitoral do poder econômico) é algo que está na
casa do bilhão de reais. Os milhares de empregos e serviços que são gerados nas
mais diversas áreas – na produção de programas televisivos, de material
gráfico, de especialistas em pesquisas de opinião e em internet, de motoristas
de veículos e de carros de som, de panfleteiros contratados, etc. – desmentem a
retórica do “desperdício econômico” que a democrática disputa eleitoral
supostamente acarretaria.
A sugerida alteração no
cronograma das eleições visando separar as eleições de natureza nacional
daquelas de caráter regional e local, é motivada pela necessidade de, em nome
de uma maior politização de nossa sociedade, não misturarmos, num mesmo
processo eleitoral, uma pauta político-programática de temáticas nacionais com
aquelas questões de âmbito estadual. Do ponto de vista político-pedagógico,
para aprofundarmos a consciência política de nosso eleitorado via uma maior
clarificação do confronto programático, é ruim termos, às 2ª, 4ª e 6ª feiras,
propostas e debates de questões pertinentes à Presidência da República, Senado
e Câmara Federal, e às 3ª, 5ª e sábados termos em discussão a problemática
estadual. Tal fato não permite maior nitidez e aprofundamento do debate
político-eleitoral nacional. A eleição presidencial “solteira” de 1989 é o
exemplo mais recente – e radicalizado, posto que nem disputas para o Congresso
Nacional ocorreram então – do quão apaixonante e politizador é o debate
político diariamente centrado numa pauta política de interesse essencialmente
nacional (é claro que o contexto ideológico e econômico da época já era, por si
só, bastante polarizador, o que não diminui a importância galvanizadora do foco
exclusivamente nacional das discussões políticas
nas ruas e na TV que vivenciamos diuturnamente naquela ocasião).
Para que tal proposta tenha
condições de ser aprovada no Congresso Nacional, bastaria serem prorrogados os
atuais mandatos de Governadores e Deputados Estaduais por 2 anos, de modo a
fazer coincidir o fim destes mandatos
com os dos Prefeitos e Vereadores eleitos em 2012. Uma outra possibilidade
seria fazer com que nas eleições de 2014, os mandatos de Governadores e
Deputados Estaduais tivessem apenas 2 anos.
Naturalmente, esta nova
periodização eleitoral tem seus complicadores políticos, a começar pelo fato de
que, em sendo adotada, não mais ocorreria a situação de um Deputado Estadual
poder se candidatar a Prefeito mantendo na mão o seu mandato parlamentar;
também os Governadores, sempre potenciais candidatos ao Senado Federal (e até à
Presidência da República) ficariam quase 2 anos “no sereno”, sem dispor de
“máquina governamental” para tais disputas eleitorais. Contudo, como tais
circunstâncias problemáticas não diriam respeito aos Deputados Federais e
Senadores – e como quem decide este tipo de questão é o Congresso Nacional -, é
bem possível que esta proposta tenha alguma condição de vir a ser aprovada, o
que seria altamente salutar para a vida política brasileira.
Neste alternativo cronograma
eleitoral, implementar-se-ia uma dinâmica política estruturalmente mais
adequada e coerente, visto que há muito mais sintonia temática entre as
questões municipais e estaduais do que destas últimas com as questões
nacionais. Ademais, a eleição presidencial dar-se-ia com os governadores em
meio de mandato, o que propiciaria uma reconfiguração na balança de poderes
entre os entes federados (na eleição presidencial, os governadores seriam os
“grandes eleitores” nas definições partidárias dos candidatos; já nas eleições
estaduais, cresceria o peso da Presidência nas definições de candidaturas aos
governos estaduais), além de potencializar o Congresso Nacional – sobretudo o
Senado Federal -, que veria incrementada sua importância enquanto locus gerador de candidaturas
presidenciais (o mesmo ocorrendo com o cargo de Ministro de Estado) mercê do
desestímulo que os governadores sentiriam em serem candidatos à Presidente da
República devido a terem que abandonar
mais de 2 anos de mandato de Chefe do Poder Executivo estadual.
Enfim, esta alternativa
periodização do processo eleitoral brasileiro seria um aperfeiçoamento de nossa
dinâmica política bem maior do que a proposta de unificar todas as eleições num
só momento que, de um lado, agravaria ainda mais a confusão temática hoje
vigente (misturaria questões nacionais, estaduais e municipais), e de outro
lado, diminuiria pela metade as vezes em que a cidadania brasileira
participaria dos eventos democráticos que são as eleições.