quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ORÇAMENTO IMPOSITIVO x GOVERNABILIDADE DEMOCRÁTICA

Godofredo Pinto, em dezembro de 2014

O Congresso Nacional - em 1ª votação -  aprovou, em 2014, a adoção do Orçamento Impositivo em nosso país.

O Orçamento Impositivo, num país de regime político presidencialista, é algo profundamente antidemocrático. Afinal, no presidencialismo, o povo elege dois tipos de representantes – o governante, chefe do Poder Executivo; e os parlamentares, membros do Poder Legislativo. É ao governante que o povo delega – e cobra – a responsabilidade de encaminhar as propostas que apresentara durante a campanha eleitoral, o que implica, pois, na exclusiva prerrogativa dele de definir a alocação dos recursos públicos discricionários (aqueles não obrigatoriamente vinculados por lei) conforme o programa de governo vitorioso nas urnas. Aos parlamentares eleitos, o povo delega – e cobra – a tarefa de legislar e fiscalizar os atos oriundos do Poder Executivo, além de, conforme prevê a Constituição, aprovar o Orçamento da Nação, podendo também propor obras ou serviços públicos para tal ou qual região, via emendas indicativas a serem incorporadas ou não pelo Governo, conforme estejam sintonizadas ou não com o plano de ações governamentais ou em função de reconhecimento político ao autor da proposta.

As legislações aprovadas no Congresso Nacional, ainda que todas, em princípio, sejam legais, podem ter – e, de quando em vez, têm – uma natureza não democrática e/ou injustificavelmente corporativa. Este é o caso da legislação relativa ao Orçamento Impositivo.

De fato, o governante eleito, comprometido com um programa de ações, ser obrigado a implementar propostas – via emendas parlamentares impositivas – de políticos com visão e interesses antagônicos aos do vitorioso nas urnas, é um evidente contrassenso do ponto de vista democrático. Em verdade, colocar em prática projetos de parlamentares de oposição conflitantes com o planejamento governamental, é contrariar a vontade da maioria do eleitorado expressa na opção eleitoral por outro programa de governo que não o da minoria.

Ademais, a adoção do Orçamento Impositivo terá muito graves consequências políticas. É muito natural e democrático – inclusive é fato vigente em todas as democracias do mundo -, que os parlamentares sintonizados com um governo, recebam do governo que apoiam o devido reconhecimento em termos de obras, cargos públicos, reivindicações sociais ou de “minorias”. Afinal, quem apoia, participa. Tal relacionamento de mão dupla – reitero, existente em todo mundo democrático -, é tido, pelo senso comum insuflado pela mídia, como sendo um desqualificado “toma lá, dá cá” (como se houvesse alguma democracia onde parlamentar apoiasse governo apenas “desinteressadamente”, sem alguma contrapartida política).

Com o Orçamento Impositivo ocorrerá, do ponto de vista do legítimo interesse político prático, uma indistinção entre parlamentares situacionistas e oposicionistas, na medida em que todos serão igualmente atendidos em suas demandas orçamentárias. Assim sendo, para aquele grande contingente de parlamentares que se motivam prioritariamente a apoiar o governo para melhor atender as demandas de suas bases eleitorais, haverá um forte estímulo a “elevar o preço” do apoio político ao governante eleito, já que os recursos que pleiteia estão automaticamente garantidos. Logo, o grau de compromisso da bancada governista tende a diminuir significativamente, dificultando a “amarração” do apoio congressual às propostas do Governo eleito pelo povo. Instabilidade, grau ainda bem mais elevado de “cobrança” (sobretudo por cargo público, que passa a ser, para a maioria dos congressistas, o principal “bônus” político concreto a distinguir o parlamentar situacionista do oposicionista) pelo apoio ao Governo, e, pois, governabilidade bem mais difícil é o que se pode esperar cada vez mais em nosso país com o advento do Orçamento Impositivo.

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